Que blog é esse?



Silenciosamente a raíz procura.

Me interessa o que dá impulso

a origem, o fulgor

o Quem por detrás.

"Pois cada um de nós sofre com a idéia de desaparecer, sem ser ouvido e notado, num universo indiferente, e por isso quer, enquanto ainda é tempo, transformar a si mesmo em seu próprio universo de palavras". Milan Kundera



segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

Da arte de falar sozinha na rua:
quando você sai da aula de inglês e se surpreende com um céu amplo e colorido de fim de tarde e diz sem querer: I love when they mix the coulours in the sky!
... E sorri com a boca e com os olhos, abre os braços para a avenida Manoel Dias da Silva esperando que o sinal abra. É aí que o sinal fica amarelo e você atravessa porque hoje com certeza os carros vão parar...!
Que êxtase em estar viva!
Andar é quase um deslize, pois seus pés não tocam o chão. A existência é feita de espaço. É só você e o espaço... tudo pode ser preenchido, penetrado.... Você segue.... nesse ritmo ancestral sobre a terra, abaixo do céu, você-inter-espaço.
Da arte de rir sozinha: Uma mulher andava  equilibrando-se sobre um salto alto à minha frente e de repente olhou pra trás levantando uma perna. Eu ri muuuuito, mas muito! Ela poderia estar me dando um coice. Não entendi até agora o porquê desse coice; vai ver ela dá coices como eu falo sozinha... Enfim.

sábado, 28 de janeiro de 2012

Ela quer sair

A louca na clausura faz estragos quase irreparáveis. Ela dá dentadas como filhote de alienígena. A louca nunca foi um bebê. Isso dói porque ela termina sendo maior que eu. Ao mesmo tempo que é tão incômoda e renitente ela é a razão da minha vida, porque na verdade só estou viva quando ela consegue me engolir. Então eu a espero... eu a espero.... num trabalho de parto doloroso. Eu não faço nada para impedi-la... se só a força do querer pudesse parir um filho haveriam mais habitantes no mundo... mas há o impedimento do corpo. Eu tenho paciência porque entendo o processo, é o mesmo processo. Sei que na hora ela vai rasgar as membranas e como uma enorme bolha vai me engolir; me virarei ao avesso por tempo indeterminado. Sofrerei na clausura do seu corpo como ela sofreu no meu. Não me reconhecerei; não haverá luz; não estarei morta nem viva e quando o seu corpo se tornar menor vou querer sair. Será ela a me querer como eu a quis sofregamente. Quando eu nasço trago a força da serpente, fria e prudente, mas é a pele da outra que recolho e saio vivendo.

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

A respiração da existência

Viver é quando a crista da onda bate na areia. Da onda retornar ao oceano e depois à areia novamente consiste a existência. Se deixar ir com essa respiração é não ter medo, é ter certeza da eternidade.

Ritmo

Para me reinventar, comigo é assim, meu processo. Isolo-me às vezes a contra-gosto - e olha que difícilmente faço o que não quero - mas por ter vivido esses 23 anos todos (e eu acho muito) adquiri um pouco de malandragem, a pólvora que fica ao redor depois que a bomba explode. E escrevo assim desordenadamente porque é assim que me encontro no meu pequeno auto-exílio. Imagino que sou feita de conchas que catei, da terra escura cheia de minerais, de sons que reverberam entre as paredes da pele, de uma espécie de pouquinho de cada coisa de  um universo lírico que habita meus sonhos - e assim, aos poucos ou subitamente, emerjo de mim mesma na forma de tronco de árvore.
Gostaria também de comunicar que estou feliz e que para se fechar em sua caverna não é necessário estar triste, e nem por isso fico triste necessariamente. Estou mesmo é contente por conseguir acertar o passo, sentir quando a lua está negra e nova dentro do meu corpo, dentro do meu instinto. Por me olhar no espelho e aceitar o que não me agrada e me propor o desafio de desagradar o desagrado. Tudo isso porque é melhor fluir... e nunca resistir a uma força que é maior. Quem flui é grande.

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

Uma carta de quatro de paus entre folhagens e um cachorro completamente branco com uma rosa branca na boca. É um sinal, você deve dizer sim. Não, não assim; não sim. Eu não aceito os sinais da vida? Com certeza aceito, tanto é que os vi - vi o cachorro vi a flor vi a carta... os aceitei muito antes de vê-los. Tudo que posso lhes dar é o meu olhar, meu consentimento por existirem e o ser afetada por sua aparição. Meu coração já é outra coisa; é algo que não pertence a mim, tem vida própria.

sábado, 21 de janeiro de 2012

Como um encontro se vai

Monotipia na pele.
A matriz jamais será a mesma.
Faço impressões fantasmas até sumir
sumir-me
sumir-vos.

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

Manhã tão bonita manhã

Amanheceu uma manhã tropical. Eu não podia estranhar, mas achei esquisito. O chão estava repleto de rolhas, a mesa de folhas e as camas forradas com gente em qualquer posição. Um braço por baixo do corpo, quadris torcidos, as pernas para os lados; joelhos flexionados ou não, olheiras profundas como de zumbi, bocas abertas e as moscas que ainda não chegaram. Sou a primeira a acordar, posso dar bom dia à casa tocando em  certos objetos de ontem; tomar sol através da brecha que ilumina o sofá. Havia uma pilha de livros... Havia Clarice, que dizia que nem sempre que escrevia se realizava, mas que tocava nas coisas sem precisar pegá-las... e que algumas dessas coisas floresciam. Como ela, eu tocava nas coisas, tocava nas pessoas sem precisar pegá-las, segurá-las com ambas as mãos. Só em tocar se sente a alma, como uma casa amanhecendo sozinha, estalo meu chão da sala enquanto alguém pisa no quarto. A casa sou eu; recebo e acolho, ranjo imperceptivelmente. Há uma alegria muito leve na compreensão; alegria de se abandonar sobre as almofadas e sem pedir ser acariciada pelo vento, que trás cheiros de flores distantes, cheiros da rua. Por felicidade minha haviam árvores de eucalipto e aquela manhã estava fresca apesar de ontem. Sempre apesar de ontem, sempre apesar de ontem... Respiro fundo e desejo que o dia seja como uma pétala de tulipa - fresca, leve,translúcida... A poesia me salve sempre.

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Carta de uma puta ilegítima


Querido Destino,

Não me emputeças ainda mais, pois creio que ainda me faltam muitos anos para viver. Tenho visto que pessoas ruins vivem mais tempo, embora eu ainda me considere boa de nascença, mas nunca se sabe o que os outros vão pensar da nossa índole - e, sinceramente, a esta altura estou prestes a perder a noção do aceitável. Na flor da idade estou em pleno orgasmo e tudo que vejo à minha frente é um vale de preguiça e pesar. Já perdi o medo da morte, senhor Destino, e já acredito em Deus, mas continuo infelizmente me achando esta titica de galinha, o que se confirma quando me chamam de galinha e quando as meninas me lançam aquele olhar fuzilante de fêmea correta ameaçada. Hoje em dia de tristeza não me deito mais no leito vazio do meu quarto, nem faço jejum. Justamente de tristeza é que dou para todo mundo, é de tristeza que esqueço do amor idealizado, de tristeza é que engordo. Com esses quilos a mais só evito me olhar no espelho e curvar as costas, para que não sinta o atrito da gordura. Eu ainda tenho uma tese que consiste em que sou boa mesmo, e tão boa que me preocupo dos outros me acharem ruim. Uma puta mesmo deve ser ruim, mas eu sou mestiça, sou média e sou mezzosoprano. Sou loira tingida e bronzeada artificialmente; uso silicones e tenho um piercing na língua. Sou de luxo, mas sou falsa.
Por que estou falando isso? Uma declaração destas agride as pessoas. É que o senhor é o único que pode me ouvir, mesmo que não dê importância; é que alguém nos tempos tenros de juventude me caluniou e embora não acreditando no início passei a acreditar depois no que me disse, porque a pior coisa é ouvir certas coisas de quem você ama; é como uma ferida que parece nunca sarar e quando sara vira uma cicatriz em relevo, que dá choque e cada choque pode interferir nos processos do pensar.
Sou tão boa que escondo minhas dores dos outros o quanto posso e vou acreditando que sou feliz. Dizem que isso é ser superficial, mas é porque não reparam nas minhas olheiras. Em resumo, sou um erro, sou ilegítima. Minha mãe me teve dentro de um avião enquanto cruzava a África e meu pai quando me viu ficou tão emocionado que se jogou de lá de cima caindo bem em cima de um elefante... o azar foi que um passarinho infectado cagou em sua cabeça e as fezes escorreram para os seus olhos. As mucosas são tão sensíveis... Meu pai ficou por lá. Por isso minha mãe me nomeou Queda, depois ironicamente meus amigos do bairro passaram a me chamar de puta Queda. Mas eu era passiva e tudo aceitava; vivia em mim, por isso mesmo talvez depois quis estudar geologia. Não concluí os estudos porque era indolente e gostava das coisas fáceis. Se ao menos sobre mim pudessem brotar plantas e flores me sentiria muito útil dentro de minha passividade, mas precisa-se fazer algo quanto humana. A vida cobra afazeres e gosta dos atarefados. Acho que ela dá amores aos de nascimento comum; a mim que podia ter caído do avião se minha mãe se descuidasse a vida não me deu amor nenhum, só esperanças. De esperanças... não se vive, se oca. Penso que um buraco negro é como é porque um dia foi um pensamento de querer ser estrela; este pensamento não vingou e por não vingar e  ter esperanças ele engoliu a si mesmo encontrando o vácuo secreto que faz as coisas desaparecerem. Um dia virei a ser quem sabe um buraco negro e ganharei notabilidade. Ficarei conhecida como a mulher que engoliu a si mesma e o buraco negro será o resultado de uma puta Queda.
Toda essa conquista enche meus olhos, senhor Destino, mas queria me encher de algo mais por esses dias. O que te peço silenciosamente se o senhor me der aceitarei, mesmo por poucos dias, como uma espécie de férias, mas não me emputeças ainda mais, agora não: faz sol.

Esperançosamente,
Queda de Deus.


me deixaram logo atrás de um caminhão de lixo. Por isso fui andando devagar, quase querendo voltar. Muitas vezes a Pituba inteira tem cheiro de lixo. É claro que era noite e porque eu ia passando sozinha o gari falou qualquer coisa pra mim e subiu no caminhão; ficou olhando enquanto eu pensava que podia me intoxicar com a quele cheiro. Tossi umas 3 vezes. Passei ao lado de uma loja de roupas onde a vitrine estava acesa e tinha um gatinho chinês dourado acenando com a pata. O gatinho era quase de ouro e me transmitia tanta paz que eu poderia ficar mais tempo olhando... mas não convém ficar parada de noite olhando uma vitrine acesa, muito menos para um gatinho minúsculo aos pés da manequim; podiam querer me internar.  Seguindo adiante eu até estava sorrindo, eu acho, quando me deparei com um prédio que nunca tinha visto ali naquela rua tão conhecida; na frente tinha uma placa enorme dizendo "Reprodução Humana". Aí eu me assustei, me assustei mesmo... Pensei, já chegamos a este ponto? Com esse nome eu só podia pensar que reproduziam seres humanos lá dentro - em plena avenida Paulo VI, onde compramos pão e acarajé... Foi quando o sorriso me dado de presente pelo gato dourado se desfez e fiquei tonta. Mais um passo e 3 baratas zanzavam em círculos à minha frente. Estavam rápidas e indecisas, por isso tive que parar e esperar que elas tomassem um rumo. Espera-se o sinal fechar e atravessa-se, teoricamente, porque se eu tivesse atravessado exatamente no momento em que o sinal ficou vermelho teria sido atropelada com certeza. Mas acho que fui atropelada antes; sinto como se o tempo tivesse passado por cima de mim.

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

É claro que só sentimos falta do que não temos
É claro que só perdemos o que não temos
Precisamos pensar mais na imortalidade da alma

sábado, 14 de janeiro de 2012

A fuga: é para a ilha. De quem ou o quê, não sei... mas todo mundo precisa fugir em algum momento. Fugir é importante para se salvar até de si mesmo, e dos outros, com certeza. Tem gente que defende que fugir é uma vergonha; eu não, tenho orgulho de poder fugir agora e retornar quando quiser.

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

A Temperança

... mas é que quando João lhe disse que Jucileide estava sexy transferindo água para o vaso sanitário, ela simplesmente não resistiu e quebrou o celibato. Aquele filho de uma mãe. Aquela desalmada. Todos odiaram os dois naquela noite. Simplesmente era impossível descrever em palavras tamanha baixesa. Como se pode ferir assim o pudor de um grupo, de uma casa, de um coração? O pudor de Salvador? Isto é um sinal explícito de falta de amor. Aqueles dois que não amavam ninguém. É um desapego enorme; talvez um e outro tenham perdido uma parte do coração num desses caminhos que a gente tropeça e levanta.
A mulher transferindo água de uma bacia para um vaso sanitário, num banheiro qualquer, não importa, mas ela era a Temperança naquele momento. Digo porque sei um pouco de tarot, embora a personagem não soubesse. A Temperança é um arcano maior, da alquimia e do equilíbrio. Naturalmente que a Temperança tinha que ser um ser andrógino, até porque ela é uma anja, suas asas são azuis. Pobre Temperança... Quem vai entender suas diferentes manifestações? Saudosa mulherzinha renascentista, que transferia o conteúdo de um pote de porcelana para outro em sua áurea imaculada.
Perdão, perdão, perdão, perdão, perdão, perdão, perdão, perdão, perdão, perdão, perdão, perdão, perdão....


quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

ele estava me contando sobre uma mulher que morria e o sangue que lhe saía ia subindo a ladeira, tomando conta da cidade. Parece brincadeira, ela estava com o sorriso largo de quem acabava de morrer. Engraçado, quem morre sorri e quem nasce chora. Ela sorria e nem se dava conta... minutos depois lhe veio a notícia de que um ente querido, muito querido, fora acometido de uma doença grave, mais grave do que ela imaginava. Então estava feito. Uma notícia ruim de madrugada, depois de um largo sorriso, depois de uma esperança. Talvez se a notícia fosse dada de dia a doença que era grave não fosse tão grave assim... mas a essa hora, maquiada como estava, se sentia culpada. Porque esta é a hora das horas passadas. Culpada não pela doença mas pelos momentos em saúde; momentos que não poderiam ser de outro jeito, uma história coerente de dores e algumas alegrias.
Horas antes contemplava sem saída a paisagem: o semáforo vivo. As cores se transmutando e significando alguma coisa, mas não para ela, que estava alheia e certa de sua solidão.

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

Descobri que meu coração tem peristaltismo. Como se ele quisesse sair de mim; como se certas horas ele batesse tão forte a ponto de deixar meu corpo todo vibrando, como uma terra sendo pisada fortemente por pés primitivos.

A Dança


Havia um tempo em que as mulheres dançavam juntas para celebrar a lua, para celebrar a vida, para celebrar a deusa.

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

Meia-noite e duas

Eu gostaria de dizer que aconteceu um milagre. Um milagre, sabe-se, não acontece sempre... Na verdade, para mim é uma coisa tão rara quanto o nascimento de um botão de orquídea. Pois é, foi isso mesmo que aconteceu, nasceu uma orquídea aqui. E ela é tão doce... Para sustentá-la tenho respirado mais do que posso e tenho a sensação de que vou explodir a qualquer momento. Meu deus, não deixe essa orquídea morrer, não deixe que nem sequer um passarinho a coma. Aprendi a fazer pedidos meia-noite e já que o relógio da casa parou justamente à meia-noite e duas, desejo eternamente que me deixe diante dela para não perder um detalhe de sua cor e seu perfume. Agora, meia-noite e duas peço que que este sorriso que sustento com minha respiração nunca se vá. Dizem que desejo é uma questão de precisão. Ah... quem dera ter eu a habilidade certa de desejar.

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

Um conto baiano


Era uma vez... no bairro de Stella Mares uma bruxa má que naquele dia de sol intenso morria de enxaqueca. Ela era conhecida por odores horríveis que em certas luas saíam da sua casa. Dizem as más línguas que são provenientes de poções mágicas que fazem pagodeiros entrarem em sono profundo por 1 semana. Inclusive os vizinhos dizem que muitos filósofos, escritores e pesquisadores vão à sua casa com todo sigilo para adquirirem a poção.
Em frente à janela do seu quarto mais ventilado morava um poderoso milionário que tinha 5 filhos. A casa vivia em completo silêncio nos dias úteis, mas nos dias inúteis... tinham o terrível costume de ligar o seu sound surround para tomar umas cervejinhas em paz, de boa, na tranquilidade (?) de Jah. A sorte deles era que justamente nos dias inúteis a bruxa ia até as colinas de Periperi colher um certo tipo de flor rara. Porém naquele final de semana de enxaqueca ela estava incapacitada de se locomover para tão longe, mesmo que não fosse de micro ônibus e sim de vassoura.
Então o pior aconteceu. Ela nunca desconfiara que o filho mais novo do barão tinha um gosto musical tão peculiar. Para a sua inteligência de pessoa culta e conectada com as vibrações mais altas de habitantes de outros planetas inclusive, era difícil distinguir que tipo de mensagem estava sendo transmitida nas palavras que saíam da caixa de som, de forma que isto intensificava sua dor de cabeça causando, como ela mesma sabia, alterações de ondas gama no seu cérebro. Fora as vibrações intensas que abalavam as estruturas da sua casa devido ao volume absurdo a que aqueles seres se submetiam.
Foi então que ela recorreu a sua poção maravilhosa e malígna. Pegou uma de suas corujas, a mais velha Judite, e mandou que pingasse 1 gota do líquido nos copos. A operação foi concluída com sucesso. 15 minutos se passaram e nada do desejado acontecera. A bruxa ficou enfurecida; a falha da poção questionava suas habilidades de bruxa e punha por água abaixo todos os anos de aprendizado no Rio Grande do Sul. Foi então que sua pressão caiu e dormiu profundamente.
Em sono lhe veio a sua professora gaúcha que ministrava a disciplina "Sortilégios sexuais", há quase 200 anos. Estriquinina -este era o seu nome, lhe disse pausadamente num tom sussurrante: 
- Guria, tu finalmente chegaste a etapa final do teu aprendizado, bah. Chegou o momento de tu entenderes que a mágica mais eficiente se compreende nos mistérios corporais. Tu deves entender a mente das pessoas bem como os mecanismos de atração. (Toma um cole do chimarrão astral) O poder é teu!
A bruxa acordou com a sensação de que já tinha se passado muito tempo, mas a sua cabeça continuava doendo e ainda era dia. Levantou-se e reparou num anel de ouro encrustado com uma pedra vermelha que parecia um rubi, mas depois constatou que era uma granada raríssima só encontrada no sul do Brasil. Então lhe veio a lembrança da sua querida professora Estriquinina. Toda a mensagem do sonho caiu sobre sua cabeça, o que a fez doer ainda mais.
Seu olhos flamejaram e franzindo o cenho foi até a janela do quarto mais ventilado da casa. Encarou aquele bando embriagado e num só golpe arrancou a blusa escura mostrando os seus peitos perfeitos que não se pareciam com os de uma bruxa. A surpresa foi tanta que até um gavião-carijó fugitivo de Villas do Atlântico que estava passando parou para emitir o seu canto alarmante. A bruxa dava gargalhadas escandalosas e assustadoras. Os homens estavamm paralisados por tamanha beleza e ao mesmo tempo tanto assombro. Passado o furor do instante, automaticamente as mulheres dos homens, formais ou não, começaram a dar escândalos de ciúme, o que resultou num tumulto devastador. Copos foram arremessados e dentes foram quebrados. A festa acabou instantâneamente e a bruxa foi dormir.
No dia seguinte estava em colinas de Periperi cantando uma canção suave e colhendo suas flores azuis.

Você já viu uma pessoa mais gastona do que eu?

sábado, 7 de janeiro de 2012

Não estou sempre transbordante. Pensei que isto era óbvio, mas vi que os outros esperam demais; os outros precisam demais; os outros não se sustentam - nem eu.
Aliás, na maior parte das vezes estou é vazia. É quando estou oculta em minha casa ou passo pela multidão não sendo vista. Quando estou oculta nenhum Sol vem me iluminar e eu sangro. Que bobagem sangrar na lua cheia; se ocultar quando todas as luzes estão acesas... É que... tenho pra mim que para quem vive de mãos cheias fazendo tricô, modelando argilas, desenhando cacos e segurando vidas é muito difícil estar num carnaval de mãos vazias.

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

Lâminas brancas...

pela primeira vez ao deixar minhas unhas da mão direita crescerem sinto como se estivesse afiando facas. Lâminas brancas que dão a medida da minha solidão. Lâminas mais afiadas produzem um som poderoso em contato com as cordas de aço. Cordas invisíveis são tocadas no íntimo. Que mal elas poderiam fazer? Sou atiradora de facas; meu alvo não é a vítima.