Para você não duvidar de que existe alguém que tenha cheiro de sargaço, vou lhe contar uma coisa. Eu vi, com meus próprios olhos uma mulher-sargaço.
Estava eu andando pelo Corredor da Vitória e ela apareceu. Eu estava distraída em meus pensamentos, andando e pensando, nada mais. De repente um cheiro horrível me tirou da minha dispersão concentrada. Não havia mar tão perto, mas qual odor de peixe morto, não sabia de onde poderia vir. Será que era de algum mendigo ou vinha da baiana de acarajé? Mas baiana de acarajé não lida com peixe, quer dizer, só com passarinha mas o terrível cheiro de passarinha nem se assemelhava a esse. Pois era um cheiro de peixe morto, mas um morto limpinho, eu diria recém-morto.
Por acaso eu estava indo a caminho de uma galeria de arte sem saber qual era a exposição que estava ocorrendo. Chegando lá me surpreendi pois eram fotografias de vestígios marítimos na beira-mar; algas, galhos molhados, cordas, voodos... Coincidentemente o cheiro persistia e agora estava vivendo uma experiência sinestésica. Lucidamente, compreendi que coincidências existem, chegam e vão embora como um acontecimento qualquer, e assim a vida é. Controle. Em seguida fui ao bar-café do andar de baixo, tomei um expresso com bolo de chocolate, tudo tranquilamente. Havia um senhor de seus 60 e poucos anos tocando um repertório de Dorival Caymmi, muito afinado mesmo, uma voz grave imponente. Aquilo me tranquilizou e esqueci até do cheiro do peixe – a essa altura eu já havia achado uma justificativa plausível, devia ser alguma promoção de peixe por ali por perto.
Deu minha hora, eram quase 17hs e eu tinha que entregar um documento importante a uma tia-avó que não tinha forças para caminhar debaixo de sol, lá no Rio Vermelho. Paguei minha conta e fui ao sanitário. Chegando lá, mas que surpresa novamente! Aliás, não foi só uma surpresa, mas um fenômeno, uma falha mnemônica digna de doença. Dei por mim que estava de biquíni, mas que estranho! Acaso perdi a cabeça? Hoje era explicitamente um dia o qual não elegeria para ir à praia; não faz o menor sentido, em pleno meio de semana... esse biquíni. Entendi que fora realmente uma grave falha, uma distração, um curto circuito cognitivo, mas também era só isso – um sintoma de algo que eu deveria observar. Prossegui e fui assobiando qualquer música até a rua para evitar que os outros percebessem minha exasperação. Aí então até eu mesma esqueci-me de mim e passei a assobiar inconscientemente.
Mas eis que no auge da minha concentrada distração o cheiro que estava mais ameno agora se tornara mais forte e era quase insuportável. Topei numa pedra e quase caí. Parei para praguejar quando vi passando a minha frente uma mulher. Era lindíssima, vestia um casaco de soldado verde bem folgado e usava um batom tão vermelho que passei um tempo olhando só para sua boca. Estava completamente nua e apenas esse casaco. Tentei disfarçar minha indiscrição, tentei me recompor. Num lapso de segundo atravessei a rua e parei no ponto de ônibus. A mulher veio atrás de mim; ela percebeu que eu a havia notado.
Meu coração disparou, minha boca secou e comecei a tossir de nervoso. Ela parou ao meu lado e me olhava fixamente. Eu, envergonhada ainda tossindo olhava para o lado oposto, olhava para cima, mas nunca para ela. Estava quase ficando sem ar, respirei fundo. O cheiro de sargaço. Era insuportável, eu não aguentaria, estava sendo envenenada, nada daquilo era normal, nada daquilo era comum, era impossível, eu devia ter enlouquecido. Agora, vejam, como uma pessoa sensata enlouquece fácil por qualquer motivo, basta qualquer coisa, não tem dia nem hora – era possível enlouquecer. Lembrei que não tinha plano de saúde; como iria então me conservar uma louca tratada? Estava então condenada a ser uma louca sem jeito cujo único parente próximo era uma tia-avó inválida? Silêncio. Uma mão gelada me tocou o ombro. Senti como o toque de uma enguia visguenta. Como se tivesse entrado num estado de transe, a tal mulher me disse: A pescada amarela hoje está em promoção no mercado do peixe.
Era uma profecia, eu tinha certeza. Naquele momento eu já tinha entendido o recado de Deus, provavelmente ele queria que eu passasse de qualquer jeito no mercado do peixe antes ou depois de ir ter com minha tia. Mas e aquela boca vermelha? Por que deus mandaria uma mulher nua, de casaco de soldado e lábios vermelhos para me transmitir um recado tão simples? De fato, nada fazia sentido. Entreguei-me aos acontecimentos, entreguei-me, entreguei-me, ai, como entreguei-me. Façam de mim o que quiserem. Sou apenas uma museóloga. Seja lá o que for, vai passar logo.
Percebi que o forte cheiro que sentia era de sargaço! E aquele cheiro vinha daquela mulher! Ela sorriu e seu olhar era doce. Fez menção de que eu fizesse silêncio e saiu andando lentamente, como se deslizasse. Ela podia muito bem ser uma sereia. Magicamente foi deixando um rastro de algas marinhas escuras até que sumiu no horizonte.
Como se eu tivesse sonhado, voltei a mim. Uma mulher que tinha cheiro de sargaço... era possível...! Mas não podia contar a ninguém, era o meu segredo, era a minha experiência mística. Sim, eu já tive uma experiência mística, mas essas coisas não se contam. Com o rastro de vazio que fica decorrente da dúvida, da impossibilidade de abarcar o incognoscível, a gente aprende a conviver. Passei muitos anos ainda com esse segredo intocado, porém um dia na praia com amigos sentimos um forte cheiro de sargaço. Era época de sargaço, o mar tem essas épocas. Disseram: - “hum... que cheiro de sargaço!” (e todos sabem que esse não é um cheiro desejável). Distraidamente olhando as marolas que beijavam os barcos ao longe, falei: - “É... cheiro de gente”. Meus amigos me olharam desconfiados, “desde quando gente tem cheiro de sargaço?”. Ao que eu respondi, “É mesmo... besteira minha”.
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