Não sei por que sou atraída pela árvore, por isso vou em direção a ela enquanto me pergunto por que estou indo. Isto é pesquisa, é busca. Na verdade prefiro buscar que pesquisar. Buscar é mais antigo e me lembra de quando não existiam papel e caneta, quando a procura por algo era dentro de si mesmo ou na boca dos ancestrais. A busca é o caminhar e transcende qualquer resultado.
Posto-me diante da árvore grandiosa, toda tronco e raízes, e fico, esperando que ela se comunique comigo.
Amassar por amassar. É estranho a mim mesma fazer algo por fazer. Invadir o espaço da matéria sem ter um propósito, quer dizer, tendo como propósito o próprio fazer. Fazer algo que não se sabe ainda. Espero a matéria me absorver, e ao final, assim espero, eu serei o resultado de mim mesma. Serei devolvida a mim.
No primeiro contato com o barro me estranhei. Era um bloco disforme. Peguei nele timidamente e percebi de imediato que era preciso ser agressiva com a argila. Esses golpes com as mãos exigem que a gente ressuscite uma raiva sabe-se lá de quê do centro de nós mesmos. É aí que confirmo ainda mais a suposição de que parte do trabalho é intuição – e é inconsciente – se não parte, todo o trabalho vem de um lugar desconhecido que é um terreno muito inseguro. A insegurança. Esta é a palavra que rege meu trabalho. Mas curiosamente diante de todo esse terreno movediço faço viver em mim uma confiança absurda. Confiança em mim; confiança na matéria que me absorve e me conduz.
Escrevo isso com a mão direita enquanto com a mão esquerda pego e amasso a argila, ainda sem os tais vestígios vegetais e minerais. É engraçado como parece que o barro me comunica alguma coisa, e estas coisas que escrevo. Ele me diz agora que precisa de mais água.
A escultura precisa, pede, volumes. Quando a massa se revolve sobre ela mesma já se mostra com um novo caráter. As reentrâncias e marcas dos dedos indicam uma paisagem terrestre. Cada sinuosidade tem a vontade própria de desembocar em algum lugar.
Estas sinuosidades se revelam como nervuras e novamente as raízes que tem se mostrado a mim nos meus devaneios de visão se impõem. As raízes estão se impondo, e como a sua formação a partir da argila é fluida e simplesmente acontece!
A abstração não nos é simpática. Tão logo entramos em seu campo uma força em nós é acionada para que motivos do inconsciente emerjam. A abstração é um desejo despretensioso de se chegar a algum lugar. Este lugar já existia, antes mesmo de começarmos.
Mas é uma luta para desconstruir, decompor essas imagens que chegam. Num momento uma coisa que é, dalí a um instante só pareceu ser, ou foi e não é mais. Não consigo chegar a uma forma. Castelos de areia se desmoronam dentro de mim. Como é difícil chegar a um resultado por esse caminho que escolhi. A segurança ainda precisa vir, digo, a minha segurança pois me sinto acanhada. Sinto-me num território deserto aonde ninguém deseja ir.
O que apresentarei então será o cansaço da procura – uma obra de cansaço – ou uma obra que se encontrou, que quis ser ela tal como se encontra finalizada?
A limitação é importante. Trabalhar com o ilimitado gera angústia e insatisfação, além de cair no tédio. É preciso determinar um limite para ser feliz no trabalho. Até agora experimentei a argila sem os vestígios; decido então que trabalharei em baixo relevo e farei várias peças que ao final constituirão um mural.
Fim da primeira aula.
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