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sexta-feira, 23 de março de 2012

Metempsicose

Ela, a mulher real e a boneca-mulher-eterna. A mulher real tem seus 100 anos. Vê-se pelos cabelos muito brancos, como se a idade fosse medida em cabelos brancos.
Todos os dias a velhinha está sentada num banco de praça na varanda de sua casa com uma boneca ao lado – até grande demais para ser uma boneca – de plástico. Não sei como é a velhinha porque quando passei por ela não estava lá, mas sei que tem cabelos muito brancos porque me contaram. Vi a sua boneca e ela estava sorrindo. A boneca sorri de olhos arregalados: olhos azuis como um poço d’agua, cabelos crespos e castanhos claros como crina de égua (quis fazer referência à égua aqui porque ela é o feminino de cavalo e não menos importante). Ela dava a ideia de gente, portanto pode ser a representante de alguém. Agora que alguém é esse? Será a filha de mentira da velha ou a filha de verdade? Quer dizer, será que ela substitui uma filha que não existe mais de alguma forma ou é uma filha que substitui uma ausência? Sim, porque a boneca é uma ausência quase sem fim, não fosse o plástico, a crina de égua e as roupinhas de pano. Vou chamar-lhe até de Senhorita Ausência. A Senhorita Ausência não-sei-o-quê... e não sei mais o que ia dizer. Chamar-lhe pelo nome evoca o próprio significado. Esta boneca é bem assombrada.
Ausência hoje estava sozinha no banco de praça da varanda e olhava sozinha, sem piscar, a Avenida Vasco da Gama. A Vasco é uma avenida bem movimentada, muitos passam por lá, mas nem todos passam todo dia e nem todos que passam todo dia repararam que há uma casa azul do lado direito – só pode haver um lado direito para os motoristas pois é uma via de mão única – uma casa azul do lado direito que tem uma varanda grande e que nesta varandona perdido no vão está uma velhinha de 100 anos sentada com uma boneca (grandinha demais). A velha está sempre lá sentada, sempre, sempre, mas hoje curiosamente ela não estava lá.
Não sabemos se ela tinha ido tomar banho ou se alimentar – ela se alimentava? Ela se alimentava – não sabemos se foi ao médico ou se morreu. Morreu? Não se sabe, mas acreditamos que ela irá voltar para ver a avenida passar. Ao menos a boneca estava lá, ela e sua ausência. Se a velha morresse a boneca iria junto porque ninguém mais suportaria uma boneca feito gente sentada eternamente ali no banco da varanda. A mim, pelo menos, isso daria angústia, como se eu estivesse de frente para uma defunta. Aliás, uma defunta travestida de mulher com direita a batom e cílios postiços. Mas de tudo seu sorriso é o mais aterrador, pois é o sorriso sarcástico de quem não existe mais ou nem sequer existiu. Como pode alguém que não existe sorrir? É um não-alguém, então é ninguém, e ninguém me sorri – mas como? Ela assusta porque denuncia a ilusão do visível, põe ao avesso o mundo sensível e fazendo isso joga na nossa cara a eternidade. Eterna como plástico.
Que retrato! A velhinha só estava de mãos dadas com o seu espírito. Eu queria entender o que a fez chega a esse ponto. Como ela chegou a essa visão antes de mim? Ela assume ali a sua carne perecível, seus ossos fracos, cabelos brancos. Assume que é finita ao posar ao lado da boneca, para uma eterna fotografia. Ela não está mais sozinha, está de braços dados com a eternidade. Achou a certeza da mentira. Nada que parece ser é; nada que se vê existe e assim por diante: A existência do céu está por traz das nuvens.
Se aquela velha morreu, morreu em paz.

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