Muitos dos conflitos que surgem quando você comunica sua decisão aos amigos e familiares se resumem a uma coisa só: o medo da miséria. Ou seja, um apego desesperado a status e posição financeira. Porém só tem medo da miséria os miseráveis e se São Francisco de Assis tivesse se apegado a sua miséria, ficaria incógnito a humanidade e não trilharia seu caminho de simplicidade e conexão com a natureza, é um exemplo. Assim como ele, temos tantos exemplos de amor e simplicidade e... desapego.
Schopenhauer diz em seu livro “A Arte de Ser Feliz” que não há um caminho para a felicidade, mas que a felicidade é o próprio caminho. Não quero dizer que todos deveriam morar no mato, no interior, mas que não devemos ter a felicidade alheia como parâmetro. É olhar para si mesmo e se perguntar o que estamos fazendo aqui, ou o porquê de fazermos o que fazemos; se o que fazemos conduz à verdade.
“Ah, mas a felicidade vem e vai...”. Sim, certamente. Humanamente somos seres relativos e a felicidade que nos é disponível nesta condição só pode ser a felicidade relativa. No entanto acredito que se nos compreendermos como além de humanos seres divinos, de alma imortal e natureza absoluta, então poderemos sentir o gosto de uma felicidade absoluta, que é indicada pelo conhecimento da Verdade. A verdade é o nosso foco, assim como o movimento da planta é em direção à luz.
Mentiras contadas muitas vezes se tornam verdades. A quantas mentiras então não estamos submetidos? E sem saber...?
A importância do vazio
Viver mesmo é se alimentar do vazio. É do vazio que somos impulsionados à procura. A vida é procurar, fora disso, é tédio. Sempre que nos enfastiamos ficamos entediados; tudo que já temos não precisamos... e esse é um bom estado de espírito para os que estão prestes a morrer - também é uma sabedoria. Mas para nós que não acreditamos que vamos morrer tão cedo, cultivar o vazio em certa medida é fundamental. A privação auto imposta é uma estratégia de amor. Aí, ao invés de comer um banquete, come-se depois de muito andar um biscoito que por acaso lhe foi oferecido por alguém; ele é tudo que se tem e é curto, como a vida, por isso deve ser bem apreciado e degustado.
Uma conversa
Estava conversando com uma amiga muito querida e comentei da minha decisão de morar em Lençóis e trancar a faculdade. Ela, igualmente a mim, se sente muito desconfortável com o sistema e sempre se sentiu assim, chegando a abandonar o curso de medicina faltando pouco tempo para se formar. Então fez muitas viagens, Alto Paraíso (GO), Europa e Índia. Voltou à terra natal e hoje se sente insatisfeita com a vida que tem; o trabalho para ela é excessivo e lhe suga as energias; está com diabetes e stress e ainda tem que encarar problemas familiares. Uma amiga dos velhos tempos, que ela conheceu em Alto Paraíso lhe convidou para participar de um retiro lá em sua fazenda. Minha amiga reconhece que seria muito bom se aceitasse o convite, mas teme querer “ficar por lá”, ou seja, “abandonar tudo”. Fará falta o dentista e os gatos de estimação... Ela confessa que é consumista e apegada a certas coisas materiais. Tive de lhe dizer que desta forma merece a vida que leva. Por outro lado, ela me aconselhou terminar a faculdade, que pode me falar por experiência própria. Ao menos foi direta: disse que eu terminasse por uma questão burocrática, porque somos um número, e que devemos terminar o que já começamos. Meu nome nada vale aqui, mas sim o número que eu sou, o meu CPF. Terminar a faculdade será mais um número que me dará a mesma segurança que me dá um CPF. Isso me assustou. Permaneci assustada. Estou escrevendo isso tudo agora com certos detalhes justamente porque estou assustada e preciso escrever para analisar a situação... Tenho medo de ser covarde e tenho medo de ser corajosa.
Ao terminar nossa conversa peguei um livrinho de Clarice que havia comprado recentemente, pois não conseguiria dormir enquanto não digerisse parte do que estava sentindo e pensando. Logo a segunda ou terceira crônica que li me caiu perfeitamente bem. É bom, é reconfortante ver diante de si algo que a traduza, como um espelho, que lhe mostre a você mesma e você se vê como você quer enxergar...
Enviei a seguinte mensagem para minha amiga junto com a crônica:
“ Por acaso achei um texto de Clarice que se relaciona com o que estávamos conversando ao telefone. De certa forma passamos por momentos parecidos. Trata-se de liberdade, ou o medo da liberdade. Espero que façamos a melhor escolha, ou seja, a que nos deixará feliz.
Paul Klee
‘Se eu me demorar demais olhando "Paysage aux oiseaux jaunes, de Klee, nunca mais poderei voltar atrás. Coragem e covardia são um jogo que se joga a cada instante. Assusta a visão talvez irremediável e que talvez seja a da liberdade. O hábito de olhar através das grades da prisão, o conforto de segurar com as duas mãos as barras, enquanto olho. A prisão é a segurança, as barras o apoio para as mãos. Então reconheço que a liberdade é só para muito poucos. De novo coragem e covardia se jogaram: minha coragem, inteiramente possível, me amedronta. Pois sei que minha coragem é possível. Começo então a pensar que entre os loucos há os que não são loucos. É que a possibilidade, que é verdadeiramente realizada, não é para ser entendida. E à medida que a pessoa quiser explicar, ela estará perdendo a coragem, ela já estará pedindo; "Paysage aux oiseaux jaunes" não pede. Pelo menos calculo o que seria a liberdade. E é isso o que torna intolerável a segurança das grades; o conforto desta prisão me bate na cara. Tudo o que eu tenho aguentado - só para não ser livre...’ Clarice Lispector.”
O selvagem e o doméstico
Existem dois tipos de seres humanos: o selvagem e o doméstico. Se um é colocado no lugar do outro, ambos sofrem muito. Estava me perguntando por que para mim é tão difícil viver aqui, por que me sinto tão minada... As pessoas aqui me dão asco, o funcionamento daqui me enoja... Pensei que talvez não seja este o meu habitat, porque me sinto exatamente como uma onça dentro de um apartamento. Sinto-me oprimida, estão todos contra mim, não encontro uma opinião a meu favor, todos acham que devo pegar o diploma. Isso está me deixando muito triste, estou me sentindo enfraquecida... Imagino um velho elefante de circo; de tanto tempo que ficou lá apenas seu corpo se mantém em pé, porque em seus olhos não há mais nada, seu coração ainda bate mas ele é sustentado por sabe lá Deus o quê. A chama se enfraquece. Só eles sabem o que significa um dia a mais numa jaula, só eles sabem...
O mar
Tenho medo do mar e não sabia disso. Aliás, é o que sempre soube, mas só agora que me sinto estrangeira em minha terra, de cara com o mar escuro de noite, me dou conta. Essa escuridão toda do mar... essa profundeza toda, vai me engolir. Ainda sabendo que fora da Terra, no entanto perto pertinho, o astro rei Sol sofre tempestades solares... Vejam, até o Sol tem gripe. Explosões-espirros. Não chegam até aqui por conta do campo magnético da Terra. Sabendo disto me sinto uma filha, protegidinha pela mãe, e que mãe grande e poderosa, que campo magnético... Um lapso de pessimismo. É que sei que a mãe não dura para sempre; até quando estaremos protegidos? Estamos realmente protegidos? Não de nós mesmos; nós somos o risco.
Tenho saudade da Salvador que não conheci, a que Caymmi canta pra mim agora... Saudade do futuro também, quando nem sei o quê... Quero voltar a trepar nos coqueiros de Imbassaí, mas de que lugar estou falando, não sei mais, não conheço. Está tudo tão mudado. Eu mesma mudei tanto e quero correr de Salvador; quero correr do mar e suas possíveis tsunamis.
Alguns que conheço estão correndo daqui. Também, pudera, olho ao redor e só vejo metais, asfalto, sujeira, violência... Fora o plástico; o plástico está tomando tudo. Não me admira se um dia ao dar uma mordida num acarajé custando agora 5 reais encontre um pedacinho de plástico, o que vou encarar como um fato normal pois difícil é manter o petróleo fora disso.
Porém altivo e distante de tudo isso, soberbo está o mar. É a única grandeza por aqui, talvez por isso mesmo seja assustador. A cidade tal como descrevi me impele ao mar, aqui não tem lugar, mas eu não sei nadar... Ah! Apnéia. Resisto mais um ano na cidade e ganho uma alergia respiratória. Como nosso corpo é inteligente – e cruel. Ele me diz: “você não consegue mais respirar esses ares, então, toma! Aqui vai uma alergia respiratória. Então toma! Você está aqui porque quer.” É esse “porque quer” o cerne da questão. Tudo é porque quer. Se você está vivo é porque quer; se você está doente é porque quer – porque de alguma forma causou a doença; se está sem dinheiro é porque quer – porque não procurou trabalhar; se está entediada, é porque quer; se chora é porque quer – ninguém te obriga a chorar e se chora é porque procurou; e por aí vai, etc, etc. Eu sei, não é fácil continuar “querendo”, trata-se de uma luta silenciosa, levada a concessões. Então estou aqui em Salvador porque quero e sei que faço isso como um sacrifício, pelo qual não sei bem as razões do motivo. Estou por estar (?), para agradar... Mas já que tomei a decisão de ficar gosto de dizer para mim que estou aqui para provar que fiz, que pude. Tenho raiva disso e nisso vou com raiva porque não é do meu feitio dar satisfações e provar que posso, porque na verdade sei que posso tudo! E sei também que posso desistir por tédio ou por prudência, até por atenção à minha saúde.
Estamos correndo do mar porque no fundo sabemos que um dia ele engolirá tudo. Ninguém nos disse isso, ao menos não é uma verdade científica, mas sabemos. A maresia mesmo já é um prenúncio, é o mar no ar que corrói tudo. Aqui é ácido, nenhum metal sobreviverá. Cuidem de suas bicicletas para que não enferrujem nas garagens, pois guardando-as para fazer apenas aquele passeio dominical não vão vingar. Vocês pensam que aqui tudo é lento, mas se enganam, os pescadores que o digam eles que sabem do ciclo das marés, nós que o digamos, que possuímos grades de alumínio em nossas janelas. Ponha um grão de feijão na areia da praia e vá no dia seguinte para ver como está. Estamos aqui falando de sal. A cidade é toda temperada, não adianta esconder isso. Construam-se novos estágios de futebol, abaixe-se os preços dos automóveis, chamem o presidente dos Estados Unidos e a cidade continuará gravemente salgada. Pensando bem, o sal está ao nosso favor, nós que decidimos morar no mato. Ele caçoa e corroerá tudo, ele, o grande aliado, o filho do mar. Então só ficará na terra o que é da terra. Outros Caymmis poderão cantar outros coqueiros.