Que blog é esse?



Silenciosamente a raíz procura.

Me interessa o que dá impulso

a origem, o fulgor

o Quem por detrás.

"Pois cada um de nós sofre com a idéia de desaparecer, sem ser ouvido e notado, num universo indiferente, e por isso quer, enquanto ainda é tempo, transformar a si mesmo em seu próprio universo de palavras". Milan Kundera



sábado, 24 de março de 2012

Deixem meu amor dentro de mim, não o assustem.

Minha felicidade é tão solitária que as pessoas me julgam triste. Quando fazem isso me pegam desprevenida em uma alegria inocente - confusa - mas inocente e ardente por permanecer. Esta alegria se desfaz   e começo lentamente a desmoronar. Talvez eles não vejam que estou desmoronando; que a felicidade solitária a qual eles não entendem ou desconhecem, me abandona, e eu fico só, só mesmo e sem felicidade. Aí que eu fico mesmo triste, mas em geral, gostaria que soubessem que eu não sou triste e não levo as coisas de uma forma triste. Eu não amo tristemente também. É que se pouco mergulho no mar da praia em mim costumo frequentar um oceano. Sou de me recolher e sonhar, de delirar sozinha, cantar para ninguém ouvir. Esses hábitos solitários  são minha felicidade porque são a única coisa que tenho. Sim, de doer, dói algumas vezes... sentir dói quando é intenso. Espetar a ponta do dedo com uma agulha não é o mesmo que espetar um coração ou mesmo um olho. Pinto minha vida com meu sangue. Sangue, sangue, sangue, sangue! Isso te parece ruim? Parece forte demais? Mas é sangue o que está aí por dentro e te alimenta. É sangue o mistério vermelho da vida.
Queria que eles soubessem que as perguntas, essas perguntas, certas perguntas, me desconcertam e não me fazem bem. Só quero um abraço, um olhar de compreensão, um sorriso... Com as palavras sou tão ruim e me emaranho nelas, sou medusa fisgada - então, queria que apenas estivessem comigo. Peço apenas esse silêncio. Não queiram que eu seja outra, pois isso eu não sei. Deixem-me ser eu. Eu vos amo...  e permitam que eu ame em silêncio. Não estiquem a pele do meu amor como se ele fosse um velho cheio de rugas ou uma criança malcriada. Não apontem para ele com o dedo como se ele fosse um criminoso ou um louco. Deixem meu amor dentro de mim, não o assustem.

sexta-feira, 23 de março de 2012

Experiências com Espelho

Você quer me ver sempre, mas cada vez que quer é como se para confirmar se gosta de mim mesmo, para ver se sou mesmo esta pessoa que você pensa que sou. Ao final do encontro, nunca há conclusões; chegamos e saímos umas das outras como na experiência do mar. Saímos úmidas e quietas, uma com saudade da outra, mas quietas – outras essas dessas umas que são a ilusão frágil da projeção: acho eu que ela é ela, quando ela sou eu.  Assim procuram-se internamente guiadas pelo engano. Tanto interna é a busca que não a vejo com os olhos físicos e sim com o coração. Tateamos no escuro nossas nervuras sem nos tocarmos... Ah, que contradição – quando não é sim e sim é não. Quando dela me afasto é quando a tenho mais perto, como se eu pudesse ouvir sua voz bem alto me chamando na multidão. Mas quando estamos perto parece que há um abismo invisível; ouço-lhe sussurrar  mas não compreendo tuas palavras. Quando choras sou tua lágrima e de tristeza caio no chão. Um momento: Quem chora? Tu? Passei a mão no meu rosto e era eu que estava molhada; era você que tinha caído diante de mim e eu não tinha visto. Agora estávamos nós caídas. Caí em mim e continuei com a vida.

Metempsicose

Ela, a mulher real e a boneca-mulher-eterna. A mulher real tem seus 100 anos. Vê-se pelos cabelos muito brancos, como se a idade fosse medida em cabelos brancos.
Todos os dias a velhinha está sentada num banco de praça na varanda de sua casa com uma boneca ao lado – até grande demais para ser uma boneca – de plástico. Não sei como é a velhinha porque quando passei por ela não estava lá, mas sei que tem cabelos muito brancos porque me contaram. Vi a sua boneca e ela estava sorrindo. A boneca sorri de olhos arregalados: olhos azuis como um poço d’agua, cabelos crespos e castanhos claros como crina de égua (quis fazer referência à égua aqui porque ela é o feminino de cavalo e não menos importante). Ela dava a ideia de gente, portanto pode ser a representante de alguém. Agora que alguém é esse? Será a filha de mentira da velha ou a filha de verdade? Quer dizer, será que ela substitui uma filha que não existe mais de alguma forma ou é uma filha que substitui uma ausência? Sim, porque a boneca é uma ausência quase sem fim, não fosse o plástico, a crina de égua e as roupinhas de pano. Vou chamar-lhe até de Senhorita Ausência. A Senhorita Ausência não-sei-o-quê... e não sei mais o que ia dizer. Chamar-lhe pelo nome evoca o próprio significado. Esta boneca é bem assombrada.
Ausência hoje estava sozinha no banco de praça da varanda e olhava sozinha, sem piscar, a Avenida Vasco da Gama. A Vasco é uma avenida bem movimentada, muitos passam por lá, mas nem todos passam todo dia e nem todos que passam todo dia repararam que há uma casa azul do lado direito – só pode haver um lado direito para os motoristas pois é uma via de mão única – uma casa azul do lado direito que tem uma varanda grande e que nesta varandona perdido no vão está uma velhinha de 100 anos sentada com uma boneca (grandinha demais). A velha está sempre lá sentada, sempre, sempre, mas hoje curiosamente ela não estava lá.
Não sabemos se ela tinha ido tomar banho ou se alimentar – ela se alimentava? Ela se alimentava – não sabemos se foi ao médico ou se morreu. Morreu? Não se sabe, mas acreditamos que ela irá voltar para ver a avenida passar. Ao menos a boneca estava lá, ela e sua ausência. Se a velha morresse a boneca iria junto porque ninguém mais suportaria uma boneca feito gente sentada eternamente ali no banco da varanda. A mim, pelo menos, isso daria angústia, como se eu estivesse de frente para uma defunta. Aliás, uma defunta travestida de mulher com direita a batom e cílios postiços. Mas de tudo seu sorriso é o mais aterrador, pois é o sorriso sarcástico de quem não existe mais ou nem sequer existiu. Como pode alguém que não existe sorrir? É um não-alguém, então é ninguém, e ninguém me sorri – mas como? Ela assusta porque denuncia a ilusão do visível, põe ao avesso o mundo sensível e fazendo isso joga na nossa cara a eternidade. Eterna como plástico.
Que retrato! A velhinha só estava de mãos dadas com o seu espírito. Eu queria entender o que a fez chega a esse ponto. Como ela chegou a essa visão antes de mim? Ela assume ali a sua carne perecível, seus ossos fracos, cabelos brancos. Assume que é finita ao posar ao lado da boneca, para uma eterna fotografia. Ela não está mais sozinha, está de braços dados com a eternidade. Achou a certeza da mentira. Nada que parece ser é; nada que se vê existe e assim por diante: A existência do céu está por traz das nuvens.
Se aquela velha morreu, morreu em paz.

quinta-feira, 15 de março de 2012

Da decisão de morar no mato


Muitos dos conflitos que surgem quando você comunica sua decisão aos amigos e familiares se resumem a uma coisa só: o medo da miséria. Ou seja, um apego desesperado a status e posição financeira. Porém só tem medo da miséria os miseráveis e se São Francisco de Assis tivesse se apegado a sua miséria, ficaria incógnito a humanidade e não trilharia seu caminho de simplicidade e conexão com a natureza, é um exemplo. Assim como ele, temos tantos exemplos de amor e simplicidade e... desapego.
Schopenhauer diz em seu livro “A Arte de Ser Feliz” que não há um caminho para a felicidade, mas que a felicidade é o próprio caminho. Não quero dizer que todos deveriam morar no mato, no interior, mas que não devemos ter a felicidade alheia como parâmetro. É olhar para si mesmo e se perguntar o que estamos fazendo aqui, ou o porquê de fazermos o que fazemos; se o que fazemos conduz à verdade.
“Ah, mas a felicidade vem e vai...”. Sim, certamente. Humanamente somos seres relativos e a felicidade que nos é disponível nesta condição só pode ser a felicidade relativa. No entanto acredito que se nos compreendermos como além de humanos seres divinos, de alma imortal e natureza absoluta, então poderemos sentir o gosto de uma felicidade absoluta, que é indicada pelo conhecimento da Verdade. A verdade é o nosso foco, assim como o movimento da planta é em direção à luz.
Mentiras contadas muitas vezes se tornam verdades. A quantas mentiras então não estamos submetidos? E sem saber...?

A importância do vazio
Viver mesmo é se alimentar do vazio. É do vazio que somos impulsionados à procura. A vida é procurar, fora disso, é tédio. Sempre que nos enfastiamos ficamos entediados; tudo que já temos não precisamos... e esse é um bom estado de espírito para os que estão prestes a morrer - também é uma sabedoria. Mas para nós que não acreditamos que vamos morrer tão cedo, cultivar o vazio em certa medida é fundamental. A privação auto imposta é uma estratégia de amor. Aí, ao invés de comer um banquete, come-se depois de muito andar um biscoito que por acaso lhe foi oferecido por alguém; ele é tudo que se tem e é curto, como a vida, por isso deve ser bem apreciado e degustado.

Uma conversa
Estava conversando com uma amiga muito querida e comentei da minha decisão de morar em Lençóis e trancar a faculdade. Ela, igualmente a mim, se sente muito desconfortável com o sistema e sempre se sentiu assim, chegando a abandonar o curso de medicina faltando pouco tempo para se formar. Então fez muitas viagens, Alto Paraíso (GO), Europa e Índia. Voltou à terra natal e hoje se sente insatisfeita com a vida que tem; o trabalho para ela é excessivo e lhe suga as energias; está com diabetes e stress e ainda tem que encarar problemas familiares. Uma amiga dos velhos tempos, que ela conheceu em Alto Paraíso lhe convidou para participar de um retiro lá em sua fazenda. Minha amiga reconhece que seria muito bom se aceitasse o convite, mas teme querer “ficar por lá”, ou seja, “abandonar tudo”. Fará falta o dentista e os gatos de estimação... Ela confessa que é consumista e apegada a certas coisas materiais. Tive de lhe dizer que desta forma merece a vida que leva. Por outro lado, ela me aconselhou terminar a faculdade, que pode me falar por experiência própria. Ao menos foi direta: disse que eu terminasse por uma questão burocrática, porque somos um número, e que devemos terminar o que já começamos. Meu nome nada vale aqui, mas sim o número que eu sou, o meu CPF. Terminar a faculdade será mais um número que me dará a mesma segurança que me dá um CPF. Isso me assustou. Permaneci assustada. Estou escrevendo isso tudo agora com certos detalhes justamente porque estou assustada e preciso escrever para analisar a situação... Tenho medo de ser covarde e tenho medo de ser corajosa.
Ao terminar nossa conversa peguei um livrinho de Clarice que havia comprado recentemente, pois não conseguiria dormir enquanto não digerisse parte do que estava sentindo e pensando. Logo a segunda ou terceira crônica que li me caiu perfeitamente bem. É bom, é reconfortante ver diante de si algo que a traduza, como um espelho, que lhe mostre a você mesma e você se vê como você quer enxergar...
Enviei a seguinte mensagem para minha amiga junto com a crônica:
“ Por acaso achei um texto de Clarice que se relaciona com o que estávamos conversando ao telefone. De certa forma passamos por momentos parecidos. Trata-se de liberdade, ou o medo da liberdade. Espero que façamos a melhor escolha, ou seja, a que nos deixará feliz.
Paul Klee
‘Se eu me demorar demais olhando "Paysage aux oiseaux jaunes, de Klee, nunca mais poderei voltar atrás. Coragem e covardia são um jogo que se joga a cada instante. Assusta a visão talvez irremediável e que talvez seja a da liberdade. O hábito de olhar através das grades da prisão, o conforto de segurar com as duas mãos as barras, enquanto olho. A prisão é a segurança, as barras o apoio para as mãos. Então reconheço que a liberdade é só para muito poucos. De novo coragem e covardia se jogaram: minha coragem, inteiramente possível, me amedronta. Pois sei que minha coragem é possível. Começo então a pensar que entre os loucos há os que não são loucos. É que a possibilidade, que é verdadeiramente realizada, não é para ser entendida. E à medida que a pessoa quiser explicar, ela estará perdendo a coragem, ela já estará pedindo; "Paysage aux oiseaux jaunes" não pede. Pelo menos calculo o que seria a liberdade. E é isso o que torna intolerável a segurança das grades; o conforto desta prisão me bate na cara. Tudo o que eu tenho aguentado - só para não ser livre...’  Clarice Lispector.”

O selvagem e o doméstico
Existem dois tipos de seres humanos: o selvagem e o doméstico. Se um é colocado no lugar do outro, ambos sofrem muito. Estava me perguntando por que para mim é tão difícil viver aqui, por que me sinto tão minada... As pessoas aqui me dão asco, o funcionamento daqui me enoja... Pensei que talvez não seja este o meu habitat, porque me sinto exatamente como uma onça dentro de um apartamento. Sinto-me oprimida, estão todos contra mim, não encontro uma opinião a meu favor, todos acham que devo pegar o diploma. Isso está me deixando muito triste, estou me sentindo enfraquecida... Imagino um velho elefante de circo; de tanto tempo que ficou lá apenas seu corpo se mantém em pé, porque em seus olhos não há mais nada, seu coração ainda bate mas ele é sustentado por sabe lá Deus o quê.  A chama se enfraquece.  Só eles sabem o que significa um dia a mais numa jaula, só eles sabem...

O mar
Tenho medo do mar e não sabia disso. Aliás, é o que sempre soube, mas só agora que me sinto estrangeira em minha terra, de cara com o mar escuro de noite, me dou conta. Essa escuridão toda do mar... essa profundeza toda, vai me engolir. Ainda sabendo que fora da Terra, no entanto perto pertinho, o astro rei Sol sofre tempestades solares... Vejam, até o Sol tem gripe. Explosões-espirros. Não chegam até aqui por conta do campo magnético da Terra. Sabendo disto me sinto uma filha, protegidinha pela mãe, e que mãe grande e poderosa, que campo magnético... Um lapso de pessimismo. É que sei que a mãe não dura para sempre; até quando estaremos protegidos? Estamos realmente protegidos? Não de nós mesmos; nós somos o risco.
Tenho saudade da Salvador que não conheci, a que Caymmi canta pra mim agora... Saudade do futuro também, quando nem sei o quê... Quero voltar a trepar nos coqueiros de Imbassaí, mas de que lugar estou falando, não sei mais, não conheço. Está tudo tão mudado. Eu mesma mudei tanto e quero correr de Salvador; quero correr do mar e suas possíveis tsunamis.
Alguns que conheço estão correndo daqui. Também, pudera, olho ao redor e só vejo metais, asfalto, sujeira, violência... Fora o plástico; o plástico está tomando tudo. Não me admira se um dia ao dar uma mordida num acarajé custando agora 5 reais encontre um pedacinho de plástico, o que vou encarar como um fato normal pois difícil é manter o petróleo fora disso.
Porém altivo e distante de tudo isso, soberbo está o mar. É a única grandeza por aqui, talvez por isso mesmo seja assustador. A cidade tal como descrevi me impele ao mar, aqui não tem lugar, mas eu não sei nadar... Ah! Apnéia. Resisto mais um ano na cidade e ganho uma alergia respiratória. Como nosso corpo é inteligente – e cruel. Ele me diz: “você não consegue mais respirar esses ares, então, toma! Aqui vai uma alergia respiratória. Então toma! Você está aqui porque quer.” É esse “porque quer” o cerne da questão. Tudo é porque quer. Se você está vivo é porque quer; se você está doente é porque quer – porque de alguma forma causou a doença; se está sem dinheiro é porque quer – porque não procurou trabalhar; se está entediada, é porque quer; se chora é porque quer – ninguém te obriga a chorar e se chora é porque procurou; e por aí vai, etc, etc. Eu sei, não é fácil continuar “querendo”, trata-se de uma luta silenciosa, levada a concessões. Então estou aqui em Salvador porque quero e sei que faço isso como um sacrifício, pelo qual não sei bem as razões do motivo. Estou por estar (?), para agradar... Mas já que tomei a decisão de ficar gosto de dizer para mim que estou aqui para provar que fiz, que pude. Tenho raiva disso e nisso vou com raiva porque não é do meu feitio dar satisfações e provar que posso, porque na verdade sei que posso tudo! E sei também que posso desistir por tédio ou por prudência, até por atenção à minha saúde.
Estamos correndo do mar porque no fundo sabemos que um dia ele engolirá tudo. Ninguém nos disse isso, ao menos não é uma verdade científica, mas sabemos. A maresia mesmo já é um prenúncio, é o mar no ar que corrói tudo. Aqui é ácido, nenhum metal sobreviverá. Cuidem de suas bicicletas para que não enferrujem nas garagens, pois guardando-as para fazer apenas aquele passeio dominical não vão vingar. Vocês pensam que aqui tudo é lento, mas se enganam, os pescadores que o digam eles que sabem do ciclo das marés, nós que o digamos, que possuímos grades de alumínio em nossas janelas. Ponha um grão de feijão na areia da praia e vá no dia seguinte para ver como está. Estamos aqui falando de sal. A cidade é toda temperada, não adianta esconder isso. Construam-se novos estágios de futebol, abaixe-se os preços dos automóveis, chamem o presidente dos Estados Unidos e a cidade continuará gravemente salgada. Pensando bem, o sal está ao nosso favor, nós que decidimos morar no mato. Ele caçoa e corroerá tudo, ele, o grande aliado, o filho do mar. Então só ficará na terra o que é da terra. Outros Caymmis poderão cantar outros coqueiros.

Escrito sobre Experiências com a Terra N°1


Não sei por que sou atraída pela árvore, por isso vou em direção a ela enquanto me pergunto por que estou indo.  Isto é pesquisa, é busca. Na verdade prefiro buscar que pesquisar. Buscar é mais antigo e me lembra de quando não existiam papel e caneta, quando a procura por algo era dentro de si mesmo ou na boca dos ancestrais. A busca é o caminhar e transcende qualquer resultado.
Posto-me diante da árvore grandiosa, toda tronco e raízes, e fico, esperando que ela se comunique comigo. 


Amassar por amassar. É estranho a mim mesma fazer algo por fazer. Invadir o espaço da matéria sem ter um propósito, quer dizer, tendo como propósito o próprio fazer. Fazer algo que não se sabe ainda. Espero a matéria me absorver, e ao final, assim espero, eu serei o resultado de mim mesma. Serei devolvida a mim.
No primeiro contato com o barro me estranhei. Era um bloco disforme. Peguei nele timidamente e percebi de imediato que era preciso ser agressiva com a argila. Esses golpes com as mãos exigem que a gente ressuscite uma raiva sabe-se lá de quê do centro de nós mesmos. É aí que confirmo ainda mais a suposição de que parte do trabalho é intuição – e é inconsciente – se não parte, todo o trabalho vem de um lugar desconhecido que é um terreno muito inseguro. A insegurança. Esta é a palavra que rege meu trabalho. Mas curiosamente diante de todo esse terreno movediço faço viver em mim uma confiança absurda. Confiança em mim; confiança na matéria que me absorve e me conduz.
Escrevo isso com a mão direita enquanto com a mão esquerda pego e amasso a argila, ainda sem os tais vestígios vegetais e minerais. É engraçado como parece que o barro me comunica alguma coisa, e estas coisas que escrevo. Ele me diz agora que precisa de mais água.
A escultura precisa, pede, volumes. Quando a massa se revolve sobre ela mesma já se mostra com um novo caráter. As reentrâncias e marcas dos dedos indicam uma paisagem terrestre. Cada sinuosidade tem a vontade própria de desembocar em algum lugar.
Estas sinuosidades se revelam como nervuras e novamente as raízes que tem se mostrado a mim nos meus devaneios de visão se impõem. As raízes estão se impondo, e como a sua formação a partir da argila é fluida e simplesmente acontece!
A abstração não nos é simpática. Tão logo entramos em seu campo uma força em nós é acionada para que motivos do inconsciente emerjam. A abstração é um desejo despretensioso de se chegar a algum lugar. Este lugar já existia, antes mesmo de começarmos.
Mas é uma luta para desconstruir, decompor essas imagens que chegam. Num momento uma coisa que é, dalí a um instante só pareceu ser, ou foi e não é mais. Não consigo chegar a uma forma. Castelos de areia se desmoronam dentro de mim. Como é difícil chegar a um resultado por esse caminho que escolhi. A segurança ainda precisa vir, digo, a minha segurança pois me sinto acanhada. Sinto-me num território deserto aonde ninguém deseja ir.
O que apresentarei então será o cansaço da procura – uma  obra de cansaço – ou uma obra que se encontrou, que quis ser ela tal como se encontra finalizada?
A limitação é importante. Trabalhar com o ilimitado gera angústia e insatisfação, além de cair no tédio. É preciso determinar um limite para ser feliz no trabalho. Até agora experimentei a argila sem os vestígios; decido então que trabalharei em baixo relevo e farei várias peças que ao final constituirão um mural.
Fim da primeira aula.

terça-feira, 13 de março de 2012

A Mulher-Sargaço

Para você não duvidar de que existe alguém que tenha cheiro de sargaço, vou lhe contar uma coisa. Eu vi, com meus próprios olhos uma mulher-sargaço.
Estava eu andando pelo Corredor da Vitória e ela apareceu. Eu estava distraída em meus pensamentos, andando e pensando, nada mais. De repente um cheiro horrível me tirou da minha dispersão concentrada. Não havia mar tão perto, mas qual odor de peixe morto, não sabia de onde poderia vir. Será que era de algum mendigo ou vinha da baiana de acarajé? Mas baiana de acarajé não lida com peixe, quer dizer, só com passarinha mas o terrível cheiro de passarinha nem se assemelhava  a esse. Pois era um cheiro de peixe morto, mas um morto limpinho, eu diria recém-morto.
Por acaso eu estava indo a caminho de uma galeria de arte sem saber qual era a exposição que estava ocorrendo. Chegando lá me surpreendi pois eram fotografias de vestígios marítimos na beira-mar; algas,  galhos molhados, cordas, voodos... Coincidentemente o cheiro persistia e agora estava vivendo uma experiência sinestésica. Lucidamente, compreendi que coincidências existem, chegam e vão embora como um acontecimento qualquer, e assim a vida é. Controle. Em seguida fui ao bar-café do andar de baixo, tomei um expresso com bolo de chocolate, tudo tranquilamente. Havia um senhor de seus 60 e poucos anos tocando um repertório de Dorival Caymmi, muito afinado mesmo, uma voz grave imponente. Aquilo me tranquilizou e esqueci até do cheiro do peixe – a essa altura eu já havia achado uma justificativa plausível, devia ser alguma promoção de peixe por ali por perto.
Deu minha hora, eram quase 17hs e eu tinha que entregar um documento importante a uma tia-avó que não tinha forças para caminhar debaixo de sol, lá no Rio Vermelho. Paguei minha conta e fui ao sanitário. Chegando lá, mas que surpresa novamente! Aliás, não foi só uma surpresa, mas um fenômeno, uma falha mnemônica digna de doença. Dei por mim que estava de biquíni, mas que estranho! Acaso perdi a cabeça? Hoje era explicitamente um dia o qual não elegeria para ir à praia; não faz o menor sentido, em pleno meio de semana... esse biquíni. Entendi que fora realmente uma grave falha, uma distração, um curto circuito cognitivo, mas também era só isso – um sintoma de algo que eu deveria observar. Prossegui e fui assobiando qualquer música até a rua para evitar que os outros percebessem minha exasperação. Aí então até eu mesma esqueci-me de mim e passei a assobiar inconscientemente.
Mas eis que no auge da minha concentrada distração o cheiro que estava mais ameno agora se tornara mais forte e era quase insuportável. Topei numa pedra e quase caí. Parei para praguejar quando vi passando a minha frente uma mulher. Era lindíssima, vestia um casaco de soldado verde bem folgado e usava um batom tão vermelho que passei um tempo olhando só para sua boca. Estava completamente nua e apenas esse casaco. Tentei disfarçar minha indiscrição, tentei me recompor. Num lapso de segundo atravessei a rua e parei no ponto de ônibus. A mulher veio atrás de mim; ela percebeu que eu a havia notado.
Meu coração disparou, minha boca secou e comecei a tossir de nervoso. Ela parou ao meu lado e me olhava fixamente. Eu, envergonhada ainda tossindo olhava para o lado oposto, olhava para cima, mas nunca para ela. Estava quase ficando sem ar, respirei fundo. O cheiro de sargaço. Era insuportável, eu não aguentaria, estava sendo envenenada, nada daquilo era normal, nada daquilo era comum, era impossível, eu devia ter enlouquecido. Agora, vejam, como uma pessoa sensata enlouquece fácil por qualquer motivo, basta qualquer coisa, não tem dia nem hora – era possível enlouquecer. Lembrei que não tinha plano de saúde; como iria então me conservar uma louca tratada? Estava então condenada a ser uma louca sem jeito cujo único parente próximo era uma tia-avó inválida? Silêncio. Uma mão gelada me tocou o ombro. Senti como o toque de uma enguia visguenta. Como se tivesse entrado num estado de transe, a tal mulher me disse: A pescada amarela hoje está em promoção no mercado do peixe.
Era uma profecia, eu tinha certeza. Naquele momento eu já tinha entendido o recado de Deus, provavelmente ele queria que eu passasse de qualquer jeito no mercado do peixe antes ou depois de ir ter com minha tia. Mas e aquela boca vermelha? Por que deus mandaria uma mulher nua, de casaco de soldado e lábios vermelhos para me transmitir um recado tão simples? De fato, nada fazia sentido. Entreguei-me aos acontecimentos, entreguei-me, entreguei-me, ai, como entreguei-me. Façam de mim o que quiserem. Sou apenas uma museóloga. Seja lá o que for, vai passar logo.
Percebi que o forte cheiro que sentia era de sargaço! E aquele cheiro vinha daquela mulher! Ela sorriu e seu olhar era doce. Fez menção de que eu fizesse silêncio e saiu andando lentamente, como se deslizasse. Ela podia muito bem ser uma sereia. Magicamente foi deixando um rastro de algas marinhas escuras até que sumiu no horizonte.
Como se eu tivesse sonhado, voltei a mim. Uma mulher que tinha cheiro de sargaço... era possível...! Mas não podia contar a ninguém, era o meu segredo, era a minha experiência mística. Sim, eu já tive uma experiência mística, mas essas coisas não se contam. Com o rastro de vazio que fica decorrente da dúvida, da impossibilidade de abarcar o incognoscível, a gente aprende a conviver.  Passei muitos anos ainda com esse segredo intocado, porém um dia na praia com amigos sentimos um forte cheiro de sargaço. Era época de sargaço, o mar tem essas épocas. Disseram: - “hum... que cheiro de sargaço!” (e todos sabem que esse não é um cheiro desejável). Distraidamente olhando as marolas que beijavam os barcos ao longe, falei: - “É... cheiro de gente”. Meus amigos me olharam desconfiados, “desde quando gente tem cheiro de sargaço?”. Ao que eu respondi, “É mesmo... besteira minha”.

domingo, 4 de março de 2012

O medo de ser corajosa e covarde

Paul Klee

"Se eu me demorar demais olhando "Paysage aux oiseaux jaunes, de Klee, nunca mais poderei voltar atrás. Coragem e covardia são um jogo que se joga a cada instante. Assusta a visão talvez irremediável e que talvez seja a da liberdade. O hábito de olhar através das grades da prisão, o conforto de segurar com as duas mãos as barras, enquanto olho. A prisão é a segurança, as barras o apoio para as mãos. Então reconheço que a liberdade é só para muito poucos. De novo coragem e covardia se jogaram: minha coragem, inteiramente possível, me amedronta. Pois sei que minha coragem é possível. Começo então a pensar que entre os loucos há os que não são loucos. É que a possibilidade, que é verdadeiramente realizada, não é para ser entendida. E à medida que a pessoa quiser explicar, ela estará perdendo a coragem, ela já estará pedindo; "Paysage aux oiseaux jaunes" não pede. Pelo menos calculo o que seria a liberdade. E é isso o que torna intolerável a segurança das grades; o conforto desta prisão me bate na cara. Tudo o que eu tenho aguentado - só para não ser livre..."

Clarice Lispector

Super homens

Vi o super homem dentro do menino, ele não tinha uma capa vermelha. Toda a sua fantasia estava no sorrir e no atirar-se de alturas. Essa é a fantasia maior, que brilha mais que o sol... Esses meninos não tem a necessidade de se fantasiar para esconder-se, e sim de fantasiar e exercer a própria fantasia.




A importância do vazio

Viver mesmo é se alimentar do vazio. É do vazio que somos impulsionados à procura. A vida é procurar, fora disso, é tédio. Sempre que nos enfastiamos ficamos entediados; tudo que já temos não precisamos... e esse é um bom estado de espírito para os que estão prestes a morrer - também é uma sabedoria. Mas para nós que não acreditamos que vamos morrer tão cedo, cultivar o vazio em certa medida é fundamental. A privação autoimposta é uma estratégia de amor. Aí, ao invés de comer um banquete, come-se depois de muito andar um biscoito que por acaso lhe foi oferecido por alguém; ele é tudo que se tem e é curto, como a vida, por isso deve ser bem apreciado e degustado.