Que blog é esse?



Silenciosamente a raíz procura.

Me interessa o que dá impulso

a origem, o fulgor

o Quem por detrás.

"Pois cada um de nós sofre com a idéia de desaparecer, sem ser ouvido e notado, num universo indiferente, e por isso quer, enquanto ainda é tempo, transformar a si mesmo em seu próprio universo de palavras". Milan Kundera



sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

Perdão, perdão, perdão, perdão, perdão, perdão, perdão, perdão, perdão, perdão, perdão, perdão, perdão....


quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

ele estava me contando sobre uma mulher que morria e o sangue que lhe saía ia subindo a ladeira, tomando conta da cidade. Parece brincadeira, ela estava com o sorriso largo de quem acabava de morrer. Engraçado, quem morre sorri e quem nasce chora. Ela sorria e nem se dava conta... minutos depois lhe veio a notícia de que um ente querido, muito querido, fora acometido de uma doença grave, mais grave do que ela imaginava. Então estava feito. Uma notícia ruim de madrugada, depois de um largo sorriso, depois de uma esperança. Talvez se a notícia fosse dada de dia a doença que era grave não fosse tão grave assim... mas a essa hora, maquiada como estava, se sentia culpada. Porque esta é a hora das horas passadas. Culpada não pela doença mas pelos momentos em saúde; momentos que não poderiam ser de outro jeito, uma história coerente de dores e algumas alegrias.
Horas antes contemplava sem saída a paisagem: o semáforo vivo. As cores se transmutando e significando alguma coisa, mas não para ela, que estava alheia e certa de sua solidão.

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

Descobri que meu coração tem peristaltismo. Como se ele quisesse sair de mim; como se certas horas ele batesse tão forte a ponto de deixar meu corpo todo vibrando, como uma terra sendo pisada fortemente por pés primitivos.

A Dança


Havia um tempo em que as mulheres dançavam juntas para celebrar a lua, para celebrar a vida, para celebrar a deusa.

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

Meia-noite e duas

Eu gostaria de dizer que aconteceu um milagre. Um milagre, sabe-se, não acontece sempre... Na verdade, para mim é uma coisa tão rara quanto o nascimento de um botão de orquídea. Pois é, foi isso mesmo que aconteceu, nasceu uma orquídea aqui. E ela é tão doce... Para sustentá-la tenho respirado mais do que posso e tenho a sensação de que vou explodir a qualquer momento. Meu deus, não deixe essa orquídea morrer, não deixe que nem sequer um passarinho a coma. Aprendi a fazer pedidos meia-noite e já que o relógio da casa parou justamente à meia-noite e duas, desejo eternamente que me deixe diante dela para não perder um detalhe de sua cor e seu perfume. Agora, meia-noite e duas peço que que este sorriso que sustento com minha respiração nunca se vá. Dizem que desejo é uma questão de precisão. Ah... quem dera ter eu a habilidade certa de desejar.

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

Um conto baiano


Era uma vez... no bairro de Stella Mares uma bruxa má que naquele dia de sol intenso morria de enxaqueca. Ela era conhecida por odores horríveis que em certas luas saíam da sua casa. Dizem as más línguas que são provenientes de poções mágicas que fazem pagodeiros entrarem em sono profundo por 1 semana. Inclusive os vizinhos dizem que muitos filósofos, escritores e pesquisadores vão à sua casa com todo sigilo para adquirirem a poção.
Em frente à janela do seu quarto mais ventilado morava um poderoso milionário que tinha 5 filhos. A casa vivia em completo silêncio nos dias úteis, mas nos dias inúteis... tinham o terrível costume de ligar o seu sound surround para tomar umas cervejinhas em paz, de boa, na tranquilidade (?) de Jah. A sorte deles era que justamente nos dias inúteis a bruxa ia até as colinas de Periperi colher um certo tipo de flor rara. Porém naquele final de semana de enxaqueca ela estava incapacitada de se locomover para tão longe, mesmo que não fosse de micro ônibus e sim de vassoura.
Então o pior aconteceu. Ela nunca desconfiara que o filho mais novo do barão tinha um gosto musical tão peculiar. Para a sua inteligência de pessoa culta e conectada com as vibrações mais altas de habitantes de outros planetas inclusive, era difícil distinguir que tipo de mensagem estava sendo transmitida nas palavras que saíam da caixa de som, de forma que isto intensificava sua dor de cabeça causando, como ela mesma sabia, alterações de ondas gama no seu cérebro. Fora as vibrações intensas que abalavam as estruturas da sua casa devido ao volume absurdo a que aqueles seres se submetiam.
Foi então que ela recorreu a sua poção maravilhosa e malígna. Pegou uma de suas corujas, a mais velha Judite, e mandou que pingasse 1 gota do líquido nos copos. A operação foi concluída com sucesso. 15 minutos se passaram e nada do desejado acontecera. A bruxa ficou enfurecida; a falha da poção questionava suas habilidades de bruxa e punha por água abaixo todos os anos de aprendizado no Rio Grande do Sul. Foi então que sua pressão caiu e dormiu profundamente.
Em sono lhe veio a sua professora gaúcha que ministrava a disciplina "Sortilégios sexuais", há quase 200 anos. Estriquinina -este era o seu nome, lhe disse pausadamente num tom sussurrante: 
- Guria, tu finalmente chegaste a etapa final do teu aprendizado, bah. Chegou o momento de tu entenderes que a mágica mais eficiente se compreende nos mistérios corporais. Tu deves entender a mente das pessoas bem como os mecanismos de atração. (Toma um cole do chimarrão astral) O poder é teu!
A bruxa acordou com a sensação de que já tinha se passado muito tempo, mas a sua cabeça continuava doendo e ainda era dia. Levantou-se e reparou num anel de ouro encrustado com uma pedra vermelha que parecia um rubi, mas depois constatou que era uma granada raríssima só encontrada no sul do Brasil. Então lhe veio a lembrança da sua querida professora Estriquinina. Toda a mensagem do sonho caiu sobre sua cabeça, o que a fez doer ainda mais.
Seu olhos flamejaram e franzindo o cenho foi até a janela do quarto mais ventilado da casa. Encarou aquele bando embriagado e num só golpe arrancou a blusa escura mostrando os seus peitos perfeitos que não se pareciam com os de uma bruxa. A surpresa foi tanta que até um gavião-carijó fugitivo de Villas do Atlântico que estava passando parou para emitir o seu canto alarmante. A bruxa dava gargalhadas escandalosas e assustadoras. Os homens estavamm paralisados por tamanha beleza e ao mesmo tempo tanto assombro. Passado o furor do instante, automaticamente as mulheres dos homens, formais ou não, começaram a dar escândalos de ciúme, o que resultou num tumulto devastador. Copos foram arremessados e dentes foram quebrados. A festa acabou instantâneamente e a bruxa foi dormir.
No dia seguinte estava em colinas de Periperi cantando uma canção suave e colhendo suas flores azuis.

Você já viu uma pessoa mais gastona do que eu?

sábado, 7 de janeiro de 2012

Não estou sempre transbordante. Pensei que isto era óbvio, mas vi que os outros esperam demais; os outros precisam demais; os outros não se sustentam - nem eu.
Aliás, na maior parte das vezes estou é vazia. É quando estou oculta em minha casa ou passo pela multidão não sendo vista. Quando estou oculta nenhum Sol vem me iluminar e eu sangro. Que bobagem sangrar na lua cheia; se ocultar quando todas as luzes estão acesas... É que... tenho pra mim que para quem vive de mãos cheias fazendo tricô, modelando argilas, desenhando cacos e segurando vidas é muito difícil estar num carnaval de mãos vazias.

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

Lâminas brancas...

pela primeira vez ao deixar minhas unhas da mão direita crescerem sinto como se estivesse afiando facas. Lâminas brancas que dão a medida da minha solidão. Lâminas mais afiadas produzem um som poderoso em contato com as cordas de aço. Cordas invisíveis são tocadas no íntimo. Que mal elas poderiam fazer? Sou atiradora de facas; meu alvo não é a vítima.

sábado, 24 de dezembro de 2011

Queixa a um sapato

Um pouco nostálgica no natal...
Estou com fome e arrumada. Meu vestido é vermelho e pus um casaco branco por cima porque senti frio, motivo pelo qual fiquei meio quadrada. Fiquei sem as curvas femininas. Também não estou de salto alto, porque embora seja razoável em termos de equilíbrio físico, me desequilibro fácil quando sei que estou me traindo. É sim... eu até penso em traição porque sou fiel e não admito a infidelidade dos meus pés. Eu lamento que ele esteja comendo os meus pés, que ele seja tão voraz e que no fundo mesmo ele não me queira; ele quer o asfalto.
Quanto à fome, não serei nada suave. Comerei imediatamente todos os salgadinhos e docinhos que me agradarem. Sou fiel ao meu estômago.

sábado, 17 de dezembro de 2011

Como fazer uma caixa de poeminhas dadaísticos anti-ísta

1- Pegue revistas cujo conteúdo seja pop e científico
2- Comece a recortar palavras que lhe chamam atenção. Não se esqueça de recortar verbos de ligação, conjunções e artigos.

3- Peça doação de caixa de fósforo a sua rede social

4- Cole as palavrinhas em pequenas tiras de papel e misture-as dentro da caixinha. Está pronta a sua caixa de poemas dadaísticos anti-ísticos. Chame os seus amigos para fazer um sarau.

(Use tesoura sem ponta!)

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

Começando a registrar a vida das coisas

as coisas que são minhas e são do mundo, como por exemplo o meu instrumento útero-musical. Ele está em cima da peça da televisão provisoriamente. O que acontece é que passou a ser guarda-volumes. Eu mesma é que ponho dentro dele coisas pequenas que poderiam se quebrar com facilidade. Da última vez guardei lá sementes de atemóia. Então pensei... não é que ele é mesmo um útero? Não é que  pode abrigar e proteger coisas?
Sabe o que está sob nosso controle? Nada. A coisa tem alma; todas as coisas tem uma alma, mesmo que rudimentar. Elas estão o tempo todo falando com a gente.


segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

Construção




Estou fazendo registros fotográficos do meu atelier em processo de reforma. 
Está sendo uma experiência estética muito rica. Os matériais de construção descartados quando velhos e usados se desprendem de sua função e se impõem como pura forma, cor e movimento. Cada buraco no concreto é um buraco certo - janela para o interior da pele maquiada que é a parede. As inscrições nela contidas para o leigo ou a leiga se revelam como sinais, signos misteriosos ou abstrações do pensamento.

Chifre