Que blog é esse?



Silenciosamente a raíz procura.

Me interessa o que dá impulso

a origem, o fulgor

o Quem por detrás.

"Pois cada um de nós sofre com a idéia de desaparecer, sem ser ouvido e notado, num universo indiferente, e por isso quer, enquanto ainda é tempo, transformar a si mesmo em seu próprio universo de palavras". Milan Kundera



segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

Churrasco

Num churrasco me perguntaram se eu não comia carne, já sabendo todos que eu não como carne há anos, mas as pessoas não perdem a oportunidade de se repetir. Eu lhe respondi que não comia carne mesmo, e ela com a espontaneidade indignada própria da criança: - nem coração?! (silêncio) E eu, - nem coração.
Mas aí fiquei surpresa com minha resposta... Porque se há uma coisa em que sou assídua é nos assuntos do coração. Procurei me tranquilizar da minha confusão e pensei que o coração na minha vida, aquele que devoro, é o coração metafísico, que não tem forma alguma embora tenha cheiros e gostos infinitos.

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Porque não sou direta.


Teve um tempo em que eu acreditava nas respostas diretas. 
Eu era direta e sem curvas. Reta, portanto não desembocava em lugar algum. 
Hoje ando pelo caminho que construo a cada pensamento
Dou-me a chance do erro,
porque não há nada mais delicioso que ser errante entre as palavras.

Obrigada, Maria

Pelo drama

Da casa d'ela






quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

A arte de transitar

Identifico-me tanto quando se fala de embriaguez e delírio porque - já sei - porque sou essa pessoa embriagada e delirante de quem se fala. Mesmo quando não uso drogas, não é necessário. O delírio é um estado de alma em que consta perceber os quase imperceptíveis (às pessoas ordinárias) vapores que emanam de coisas simples ou das coisas essenciais - como a luz da lua e os abalos sísmicos; ou ainda das coisas triviais das quais extraímos um sumo e fazemos uma sopa.
A sopa cotidiana não tomamos, ficamos magros sentados à mesa enquanto moscas sobrevoam a comida. Magros e alimentados de amor usufruímos de outras distrações. Canta-se como nunca, e ouve-se. De repente um diálogo matinal torna-se uma ópera ao sol e enquanto a garganta vibra andamos pelo chão movediço levando nas mãos uma xícara de café. A casa toda vibra, as paredes começam a rachar, os vidros das janelas se quebram; o mundo tal como conhecemos está ruindo e o universo conspira a nosso favor. Continuamos a dançar fazendo da mesma força que destrói o nosso alimento. Existe uma alegria selvagem. As gotas escuras da bebida amarga caem no chão marcando um caminho excitante que por desatenção pode nos levar ao chão igualmente.
Cai, mas não se cai, pois aprendemos a saltar de paraquedas voluntariamente diante de precipícios assustadores. Constatamos que a queda é um início e o abandono de si mesmo aí se revela como um profundo amor à vida. Significa que experimentamos a dor muitas vezes e temos certeza de que ainda haveremos de experimentar, mas agora, entregues ao delírio e à embriaguez dançamos conforme a dança e transitamos porque somos livres! 

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

"A maior parte das coisas que meus semelhantes consideram boas, creio no fundo da alma que são más, e se de alguma coisa me arrependo é provável que seja do meu bom comportamento. Que diabo se apossou de mim para que me comportasse tão bem? Ó velho, tu que já viveste setenta anos, com toda espécie de honraria, podes dizer o que consideras mais sábio, e uma irresistível voz me convida a dar as costas à tua opinião. Uma geração abandona as conquistas da outra como se estas fossem barcos encalhados".
Henry David Thoureau, "Walden ou A Vida nos Bosques"